Como Acessar a Justiça Brasileira: Guia Completo
Guia completo explicando como o cidadão comum pode acessar a justiça brasileira: Juizados Especiais, Justiça Comum, tipos de ações (cível, trabalhista, criminal, consumo) com exemplos práticos de situações do dia a dia como acidentes, golpes, problemas trabalhistas e assédio.
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Como Acessar a Justiça Brasileira: Guia Completo para o Cidadão
Muitos brasileiros enfrentam situações que exigem recorrer à justiça, mas não sabem por onde começar. Este guia explica de forma clara e objetiva como acessar o sistema judicial brasileiro, quais os tipos de ações existentes e qual o caminho mais adequado para cada situação.
Quando Procurar a Justiça?
Você deve considerar acionar a justiça quando:
- Sofreu um acidente de trânsito e precisa ser indenizado por danos materiais ou morais
- Foi vítima de golpe financeiro ou fraude e quer reaver seu dinheiro
- Tem um problema trabalhista (demissão irregular, salários atrasados, assédio no trabalho)
- Sofreu assédio moral ou sexual e busca reparação e punição do agressor
- Teve seus direitos de consumidor violados (produto defeituoso, serviço mal prestado)
- Precisa resolver questões de família (pensão alimentícia, divórcio, guarda de filhos)
Principais Formas de Acessar a Justiça
1. Juizados Especiais (Pequenas Causas)
O que é: Forma simplificada e rápida de resolver conflitos de menor complexidade.
Quando usar:
- Causas de até 40 salários mínimos (cerca de R$ 56.000)
- Processos mais simples e rápidos
- Não precisa de advogado para causas até 20 salários mínimos
Tipos de Juizados:
- Juizado Especial Cível: problemas de consumo, cobranças indevidas, danos materiais pequenos, contratos
- Juizado Especial Criminal: crimes de menor potencial ofensivo (ameaça, lesão corporal leve, injúria, difamação)
- Juizado Especial Federal: questões contra órgãos federais (INSS, Receita Federal, CEF)
Exemplo prático: Você comprou um celular que apresentou defeito e a loja se recusa a trocar ou devolver o dinheiro. Valor: R$ 2.500. Pode entrar no Juizado Especial Cível sem advogado.
Como fazer:
- Vá ao Juizado Especial mais próximo ou acesse o site do Tribunal de Justiça do seu estado
- Leve documentos (RG, CPF, comprovante de residência, provas do problema)
- Relate o caso ao atendente que ajudará a preencher a petição
- Aguarde a audiência de conciliação
2. Justiça Comum (Primeira Instância)
O que é: Tribunais tradicionais para causas mais complexas ou de valores maiores.
Quando usar:
- Causas acima de 40 salários mínimos
- Questões mais complexas que exigem análise técnica
- Sempre necessário ter advogado
Tipos de Varas:
- Vara Cível: ações de indenização, cobranças, contratos, responsabilidade civil
- Vara Trabalhista: questões entre empregado e empregador (demissão, horas extras, assédio no trabalho)
- Vara Criminal: crimes mais graves (roubo, furto, estelionato, lesão corporal grave)
- Vara de Família: divórcio, pensão alimentícia, guarda de filhos, inventário
- Vara da Fazenda Pública: ações contra o Estado, municípios ou órgãos públicos
Exemplo prático: Você sofreu um acidente de trânsito grave causado por outro motorista e teve prejuízos de R$ 80.000 (carro, despesas médicas, lucros cessantes). Deve entrar com ação de indenização na Vara Cível com advogado.
Como fazer:
- Contrate um advogado (particular ou público via Defensoria)
- Reúna todas as provas (documentos, fotos, testemunhas, laudos médicos)
- O advogado elabora e protocola a petição inicial
- Aguarde citação da outra parte e andamento do processo
3. Câmaras de Arbitragem e Mediação
O que é: Forma alternativa de resolver conflitos sem ir ao tribunal, com a ajuda de um árbitro ou mediador neutro.
Quando usar:
- Conflitos empresariais ou contratuais
- Quando ambas as partes concordam em resolver fora do tribunal
- Busca por solução mais rápida e sigilosa
Vantagens:
- Mais rápido que processo judicial tradicional
- Decisão final (não cabe recurso)
- Sigilo (não fica público)
- Partes escolhem o árbitro especializado no assunto
Desvantagens:
- Geralmente tem custo (taxas de arbitragem)
- Ambas as partes precisam concordar
- Não serve para crimes
Exemplo prático: Você tem uma empresa e está em conflito com um fornecedor sobre um contrato de R$ 200.000. Ambos querem resolver rápido sem exposição pública. Podem optar por arbitragem.
Tipos de Ações Judiciais Mais Comuns
Ações Cíveis
Resolvem conflitos entre pessoas ou empresas sobre direitos patrimoniais.
Exemplos:
- Ação de Indenização por Danos Materiais: recuperar prejuízos financeiros (acidente, produto defeituoso)
- Ação de Indenização por Danos Morais: compensação por sofrimento psicológico (ofensa, humilhação, constrangimento)
- Ação de Cobrança: cobrar dívida não paga
- Ação de Rescisão Contratual: cancelar contrato descumprido
Ações Trabalhistas
Resolvem conflitos entre empregado e empregador.
Exemplos:
- Ação de Verbas Rescisórias: cobrar valores não pagos na demissão
- Ação de Horas Extras: receber por horas trabalhadas além da jornada
- Ação de Assédio Moral: indenização por humilhação ou perseguição no trabalho
- Ação de Acidente de Trabalho: indenização por acidente ou doença ocupacional
- Ação de Equiparação Salarial: receber o mesmo salário de colega que faz mesma função
Ações Criminais
Buscam punição de quem cometeu crime.
Exemplos:
- Queixa-Crime: vítima aciona diretamente a justiça (crimes contra honra: calúnia, difamação, injúria)
- Representação Criminal: vítima autoriza Ministério Público a processar (ameaça, lesão corporal leve)
- Ação Penal Pública: Ministério Público processa automaticamente (crimes graves: roubo, furto, estelionato, estupro)
Importante: Em crimes, a vítima não "move processo" sozinha. Quem acusa é o Ministério Público (promotor). A vítima registra Boletim de Ocorrência e pode se tornar assistente de acusação.
Ações de Consumo
Protegem direitos do consumidor contra fornecedores.
Exemplos:
- Ação de Troca ou Devolução: produto defeituoso ou serviço mal prestado
- Ação de Cancelamento: cancelar contrato abusivo (academia, curso, plano de saúde)
- Ação de Cobrança Indevida: devolução em dobro de valor cobrado indevidamente
- Ação contra Negativação Indevida: limpar nome e receber indenização
Situações Práticas e Caminhos
Sofri Acidente de Trânsito
Danos pequenos (até R$ 56.000): Juizado Especial Cível
Danos grandes (acima de R$ 56.000): Vara Cível com advogado
Houve crime (embriaguez, fuga): Boletim de Ocorrência + processo criminal
Fui Vítima de Golpe Financeiro
Valor pequeno: Juizado Especial Cível (devolução do dinheiro)
Valor grande: Vara Cível com advogado
Crime de estelionato: Boletim de Ocorrência (Ministério Público processa)
Tenho Problema Trabalhista
Qualquer valor: Vara do Trabalho (Justiça do Trabalho)
Não precisa advogado obrigatoriamente, mas é recomendado
Pode pedir assistência da Defensoria Pública se não tiver condições de pagar
Sofri Assédio Moral ou Sexual
No trabalho: Vara do Trabalho (indenização + rescisão indireta)
Crime de assédio sexual: Boletim de Ocorrência + processo criminal
Pode acumular: processo trabalhista (indenização) + processo criminal (punição do agressor)
Documentos Necessários
Para qualquer ação judicial, organize:
- Documentos pessoais: RG, CPF, comprovante de residência
- Provas do problema: contratos, notas fiscais, recibos, e-mails, mensagens, fotos, vídeos
- Testemunhas: nome, telefone e endereço de quem presenciou os fatos
- Laudos técnicos: se houver (médico, pericial, avaliação de danos)
- Boletim de Ocorrência: se for caso de crime
Prazos Importantes
Atenção aos prazos de prescrição (prazo máximo para entrar com ação):
- Danos materiais e morais: 3 anos (Código Civil)
- Relações de consumo: 5 anos
- Questões trabalhistas: 2 anos após fim do contrato (para cobrar até 5 anos anteriores)
- Crimes: varia conforme a pena (de 3 a 20 anos)
Dica: Não deixe para depois! Quanto mais tempo passar, mais difícil reunir provas e testemunhas.
Custos do Processo
Juizados Especiais
- Gratuito para causas até 20 salários mínimos
- Sem custas iniciais para causas até 40 salários mínimos
- Se perder, pode ter que pagar custas e honorários
Justiça Comum
- Custas judiciais: variam por estado (2% a 4% do valor da causa)
- Honorários de advogado: livre negociação (pode ser % do valor ganho)
- Perícias: se necessário, pode custar de R$ 1.000 a R$ 10.000+
Gratuidade de Justiça
Se você não tem condições de pagar, pode pedir gratuidade de justiça (veja nosso guia específico sobre acesso gratuito à justiça).
Dicas Importantes
- Tente resolver antes: Muitos problemas podem ser resolvidos por acordo direto, Procon, ou mediação extrajudicial
- Reúna provas: Quanto mais documentos e testemunhas, maior a chance de ganhar
- Procure orientação: Defensoria Pública, OAB e faculdades de Direito oferecem atendimento gratuito
- Não assine nada sem ler: Em acordos judiciais, leia tudo antes de assinar
- Acompanhe o processo: Peça o número do processo e acompanhe pelo site do tribunal
Links Úteis
- Conselho Nacional de Justiça: www.cnj.jus.br - informações gerais sobre justiça
- Tribunais de Justiça Estaduais: busque "TJ" + sigla do seu estado (ex: TJ-SP, TJ-RJ)
- Justiça do Trabalho: www.tst.jus.br
- Defensoria Pública: www.defensoria.sp.def.br (varia por estado)
- Procon: www.procon.sp.gov.br (varia por estado)
Conclusão
Acessar a justiça brasileira pode parecer complicado, mas existem caminhos adequados para cada situação. O mais importante é não desistir dos seus direitos por falta de informação. Comece reunindo provas, procure orientação gratuita se necessário, e escolha o caminho judicial adequado ao seu caso.
Lembre-se: a justiça existe para proteger seus direitos. Não tenha medo de buscá-la quando necessário.
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